Tenho uma amiga muito certeira em suas palavras. Alessandra—ou Lelê, como todas gostam de chamá-la—é linda, é flor desabrochada no auge da primavera. Conheço-na desde a adolescência, pois foi nela que me encontrei e foi ao seu lado que percebi que as alegrias, na vida, são como a chuva; ora nos deixam encharcados, ora, ressecados. Lelê nunca deixou que a derrota me dominasse e me ensinou que o sonho é o alimento da vontade de crescer, é o desejo mais íntimo e fiel do frágil coração.
Enfim, fiquei chocada—quiçá extasiada num cruzamento de orgulho e medo—quando me contou que viajaria. Nunca havíamos experienciado a distância e eu temia que esse tempo que passaria longe do meu campo de visão fosse capaz de enfraquecer nossos laços, nossos nós, nossa união. Nos falávamos de vez em quando e eu notava no seu tom de voz que, aquilo que estaria a experimentar, era o que sempre sonhara para si, era a oportunidade dourada que sempre buscara. Senti ânsia. Senti angústia. Senti saudades. Seria Lelê capaz de me trocar? Seria ela rasa o suficiente para intercambiar nosso amor por um sentimento cultivado em situações extremas de carência e desespero? Indaguei-me por algumas vezes. Senti um arrepio, como se fosse uma resposta de um palpite certeiro do subconsciente. E por dias essa insegurança ecoava na minha mente.
Foi então que ela voltou, depois de longos e tenebrosos meses, e eu pude perceber que estava mais enérgica, mais animada, mais sorridente. Mais viva. E também fui capaz de notar que a distância, apesar de cruel e desapiedada, apenas corroborou com o imenso e rutilante amor que cultivamos uma pela outra. O sentimento é algo ininteligível e incomensurável para ser apagado por quilômetros—sua força rompe as barreiras da saudade e subjuga as covardes expectativas. Desesperadas pelos velhos tempos, decidimos sair para comer alguma besteirinha. Enquanto esperávamos por uma mesa, digo para ela que a última semana foi a mais custosa a passar: eram ansiedade e desespero demais a um pequeno coração. Lelê riu e vi, na concavidade das suas covinhas, que a angústia era recíproca. Foi então que o que ela me disse me marcou:
—Amor, a parte mais penosa de estar longe foi viver momentos de prazer e não poder compartilhá-los com você, foi passar por experiências únicas e não te ter ali pra dividí-las comigo, foi ser elogiada por meus dons e ser aplaudida por todos, menos por você. Mas apesar de tudo, eu sempre soube que, no fundo, você sempre esteve ali, escondidinha, dentro de mim. Meu coração sempre foi e sempre será sua casa, te amo.