Hipercubo
12.10.09/// 2:13 PM
E o vai-e-vem de sentimentos, de angústias, de indecisões cessou. A emoção escorrera pela vala do agnosticismo e deixara, ali, um vazio. Um vão frivolamente impreenchível ou impreenchivelmente frívolo. Passou a viver em função dos afazeres acadêmicos. Acordava, estudava e dormia. Quiçá parava pra assistir a alguma porcaria ou outra na televisão. Pensava, racionalizava, teorizava. Mas não sentia, não mais. Decidira que não perderia mais do seu precioso e recorrido tempo com essa vassalagem sentimental.
Livrara-se de todas essas amarras do coração, menos da saudade. Os amores ficaram pra trás, as risadas eram esboçadas por força do hábito, as decepções foram esquecidas. Mas seus amigos, doces e queridos amigos, nunca perderam a vez em sua vida. Superaria as emoções e, cada vez mais, tinha a certeza de que a supressão da saudade não procederia. Eles eram tudo de mais precioso que tinha e, talvez, aquilo que julgara jamais conseguir conquistar na vida. Eram parte de si, compunham a totalidade da sua pessoa físico-psicológico-emocional.
E dessa saudade, a cada encontro, pareciam reflorescer todos os sentimentos oprimidos e resguardados, como a primavera, que parte em dezembro e retorna em setembro para o nosso deleite; desabrochando os botões e pintando numa aquarela de infinitos tons a paisagem da vida. Sente como se tivesse renascido, como se cada acontecimento de então em diante fosse o primeiro de muitos e a experiência dos anos tivesse de ser reaprendida e reassimilada.
Tudo culpa do amor, que sentimentaliza o racional e racionaliza o sentimental.