Se tiverdes um coração...
11.9.09/// 3:08 PM

Sua vida amorosa era um verdadeiro fiasco. Sua galeria de paixonites era composta, na maior parte dos casos, por pessoas desconhecidas – com quem nunca trocara sequer um dedo de prosa – ou mesmo por personagens imaginárias. Sempre criou ilusões de perfeccionismo para contemplar ao invés de enxergar a pessoa com quem, de fato, se relacionara.

― Me sinto um tolo ao te confessar uma coisa dessas, mas acho que me apaixonei por um rapaz da faculdade... Um com quem nunca falei. Aliás, cheguei a vê-lo só algumas vezes, duas ou três. Ou quatro. Mesmo assim, sei que fomos feitos um para o outro...

E continuou. Não sei o quão nítida está a tênue linha entre o discernimento e o impulso, entre a realidade e a fantasia dentro da cabeça dele. Talvez esse ímpeto afetuoso de sempre estar em busca de um amor platônico e inconcreto seja fruto de alguma frustração. É como se não levasse suas próprias sensações a sério. O sentimento é infantilizado a ponto de tornar-se uma triste piada, daquelas que rimos pra não chorar.

― Talvez ele saiba que eu o ame. Talvez não. Talvez ele me ame também. Talvez não. São meras hipóteses...

Não existe pessoa perfeita, nem que se encaixe exatamente no padrão de cada um. Os possíveis candidatos a futuros amantes são tão humanamente imperfeitos quanto todas as demais pessoas. O problema está na ilusão. O nervosismo entra numa explosiva ebulição, o sangue passa a circular com mais vigor pelo corpo carregando doses e mais doses de adrenalina consigo. Conforme o tempo passa, as impressões se desmancham, o medo do desconhecido desvanece-se e a verdade passa a ser evidente. Ai vêm as decepções, a amargura, a repulsa.

― Eu prefiro que seja assim, à distância, sem nos conhecermos ou nos tocarmos. Sei que se conhecê-lo, logo vou procurar os defeitos e desencantar. Gosto dessa sensação de estar vivendo um constante e interminável conto de fadas...

E punha-se a filosofar ainda mais. Sinto que começo a acreditar em suas palavras...