Amor em mesóclise
31.7.09/// 12:11 AM
Bibi nunca está contente.
Desde pequena ela faz o tipo difícil, tem amigas escalafobéticas, compra roupas caras e chama a atenção por onde passa. Sua opinião muda da noite pro dia; Hoje, ela diz que nunca mais põe os pés pra fora de casa e amanhã já está querendo sair outra vez pra se divertir. É clara a opinião de muitos, que ela é fútil e superficial, mas essa aparência é só uma casquinha, uma proteção para o seu íntimo. Na realidade, Bibi é muito doce e vulnerável e para se defender usa de artifícios e se transveste, incorpora uma personagem.
Ela faz uma inigualável cara de megera quando a aborrecem. Aliás, não queira aborrecê-la, estou certa de que não apreciará o que vai (provavelmente) escutar. Todo mundo conhece o caso da Regina. Na festa da Gracinha, a pobre coitada bebeu um pouquinho a mais e disse pra Bibi o que não devia. Tem quem diga que depois daquele dia a cabocla nunca mais chegou perto de uma garrafa de álcool Zulu, traumatizada com tanta humilhação.
Ela se diz "muito bem, obrigada", mas dá pra sentir que está à procura de um amor. Verdadeiro, de preferência. Homem nenhum foi capaz de fazê-la sentir-se uma mulher completa, de suprir totalmente suas necessidades. E eu, como boa amiga que sou, fico sempre alerta quando Bibi resolve se engraçar com um ou outro que aparece por ai, porque no final das contas eles só querem curtir e minha amada fica péssima achando que o amor não é pra ela.
Na realidade, acho que o amor não é pra nenhuma de nós duas. Sabe quando aquele bonitinho, com quem você troca uns rabiscos de olhar, resolve finalmente te dar atenção (e você, boba que só, se derrete inteira)? Eles fazem juras de paixão eterna, nos prometem mundos e fundos e depois de conseguir o que queriam, somem. Então, é sempre assim que acontece, já sabemos o final da estória de cor e salteado. De trás pra frente inclusive.
Compartilhamos de várias tardes de compras que são como terapia para garotas desoladas e abaladas, com direito a muito sorvete, bolo e peças incríveis para incrementar o guarda-roupa, tudo financiado pelo santo cartão de crédito. Mamãe sempre diz que cartão só serve pra uma coisa: dar dor de cabeça. Mas só se for nela, que paga a fatura no final do mês. Canonizada devia ser a pessoa que inventou essa maravilha, tão prática e versátil quanto um tubinho preto.
― Você vai me amar pra sempre? ― Bibi indagou-me na hora na despedida.
― Amar-te-ei. Pra todo o sempre. ― respondi e logo esbocei um sorriso no rosto.