Benevolência, trancendentalismo, ligação espiritual
29.3.11/// 10:30 PM

Tenho uma amiga muito certeira em suas palavras. Alessandra—ou Lelê, como todas gostam de chamá-la—é linda, é flor desabrochada no auge da primavera. Conheço-na desde a adolescência, pois foi nela que me encontrei e foi ao seu lado que percebi que as alegrias, na vida, são como a chuva; ora nos deixam encharcados, ora, ressecados. Lelê nunca deixou que a derrota me dominasse e me ensinou que o sonho é o alimento da vontade de crescer, é o desejo mais íntimo e fiel do frágil coração. 

Enfim, fiquei chocada—quiçá extasiada num cruzamento de orgulho e medo—quando me contou que viajaria. Nunca havíamos experienciado a distância e eu temia que esse tempo que passaria longe do meu campo de visão fosse capaz de enfraquecer nossos laços, nossos nós, nossa união. Nos falávamos de vez em quando e eu notava no seu tom de voz que, aquilo que estaria a experimentar, era o que sempre sonhara para si, era a oportunidade dourada que sempre buscara. Senti ânsia. Senti angústia. Senti saudades. Seria Lelê capaz de me trocar? Seria ela rasa o suficiente para intercambiar nosso amor por um sentimento cultivado em situações extremas de carência e desespero? Indaguei-me por algumas vezes. Senti um arrepio, como se fosse uma resposta de um palpite certeiro do subconsciente. E por dias essa insegurança ecoava na minha mente.

Foi então que ela voltou, depois de longos e tenebrosos meses, e eu pude perceber que estava mais enérgica, mais animada, mais sorridente. Mais viva. E também fui capaz de notar que a distância, apesar de cruel e desapiedada, apenas corroborou com o imenso e rutilante amor que cultivamos uma pela outra. O sentimento é algo ininteligível e incomensurável para ser apagado por quilômetros—sua força rompe as barreiras da saudade e subjuga as covardes expectativas. Desesperadas pelos velhos tempos, decidimos sair para comer alguma besteirinha. Enquanto esperávamos por uma mesa, digo para ela que a última semana foi a mais custosa a passar: eram ansiedade e desespero demais a um pequeno coração. Lelê riu e vi, na concavidade das suas covinhas, que a angústia era recíproca. Foi então que o que ela me disse me marcou:

—Amor, a parte mais penosa de estar longe foi viver momentos de prazer e não poder compartilhá-los com você, foi passar por experiências únicas e não te ter ali pra dividí-las comigo, foi ser elogiada por meus dons e ser aplaudida por todos, menos por você. Mas apesar de tudo, eu sempre soube que, no fundo, você sempre esteve ali, escondidinha, dentro de mim. Meu coração sempre foi e sempre será sua casa, te amo. 



Hipercubo
12.10.09/// 2:13 PM

E o vai-e-vem de sentimentos, de angústias, de indecisões cessou. A emoção escorrera pela vala do agnosticismo e deixara, ali, um vazio. Um vão frivolamente impreenchível ou impreenchivelmente frívolo. Passou a viver em função dos afazeres acadêmicos. Acordava, estudava e dormia. Quiçá parava pra assistir a alguma porcaria ou outra na televisão. Pensava, racionalizava, teorizava. Mas não sentia, não mais. Decidira que não perderia mais do seu precioso e recorrido tempo com essa vassalagem sentimental.

Livrara-se de todas essas amarras do coração, menos da saudade. Os amores ficaram pra trás, as risadas eram esboçadas por força do hábito, as decepções foram esquecidas. Mas seus amigos, doces e queridos amigos, nunca perderam a vez em sua vida. Superaria as emoções e, cada vez mais, tinha a certeza de que a supressão da saudade não procederia. Eles eram tudo de mais precioso que tinha e, talvez, aquilo que julgara jamais conseguir conquistar na vida. Eram parte de si, compunham a totalidade da sua pessoa físico-psicológico-emocional.

E dessa saudade, a cada encontro, pareciam reflorescer todos os sentimentos oprimidos e resguardados, como a primavera, que parte em dezembro e retorna em setembro para o nosso deleite; desabrochando os botões e pintando numa aquarela de infinitos tons a paisagem da vida. Sente como se tivesse renascido, como se cada acontecimento de então em diante fosse o primeiro de muitos e a experiência dos anos tivesse de ser reaprendida e reassimilada.

Tudo culpa do amor, que sentimentaliza o racional e racionaliza o sentimental.



Secrets (?)
22.9.09/// 9:05 AM

Naquela data, foi visitada novamente por um pensamento que sempre a cercou...

A culpa de muitos de seus problemas, ou de seus dilemas íntimos, eram obviamente provocados por ela mesma! Percebeu que a imagem que havia criado para todos, não era real, mas já tinha se tornado sólida; isso a incomodava e lhe causava um certo prazer (bobo, mas único). Analisando não somente sua vida, mas também de todos que a rodeavam, sentiu (assim como quem sente frio ou calor), que todos agiam da mesma forma, porém na hora de se expor, somente ela se mostrava por completa, enquanto os outros tentavam omitir_ muitas vezes o óbvio!

Mesmo incomodada, percebeu que possuía um triunfo, se até aquela data; ela, somente ela, tinha alcançado o 'dom' de mostrar-se sem melindres, poderia também agora ter a 'virtude' de esconder-se, mas mesmo querendo, achava essa forma, essa aparência, hipócrita demais, para quem já tinha feito tudo, experimentado de tudo, e apesar dos pesares, exibido aquilo, não com orgulho, nem medo, mas apenas como uma forma de falar a todos:

—Sim, eu sou humana... Torta em quase tudo, e por isso me acho perfeita. Pois tenho a capacidade de errar e continuar sendo eu mesma!

Mas essa frase de atuo-afirmação só era admirável em sua cabeça, em seus lábios e nos ouvidos dos "outros" pareceria a ostentação de um sentimento, para se sentir fortificada. Ela calou seus pensamentos; viu que não adiantava, as pessoas continuariam a vê-la daquela forma, imaginariam seus detalhes, e tentariam codificar da mesma forma as suas entrelinhas. A única saída era "perdoar-se", já que no fundo ela se aceitava com seus erros, seus pecados_ intrínsecos; não podia odiar-se, por não manter uma pose como a dos outros. Aceitou-se. Apenas sentiu uma dor quando seu 'eu' lhe aconselhou:

—A partir de hoje apenas não conte detalhes, não sacie a curiosidade alheia. A imaginação dos outros já é difamatória o bastante!

Sorriu.



Se tiverdes um coração...
11.9.09/// 3:08 PM

Sua vida amorosa era um verdadeiro fiasco. Sua galeria de paixonites era composta, na maior parte dos casos, por pessoas desconhecidas – com quem nunca trocara sequer um dedo de prosa – ou mesmo por personagens imaginárias. Sempre criou ilusões de perfeccionismo para contemplar ao invés de enxergar a pessoa com quem, de fato, se relacionara.

― Me sinto um tolo ao te confessar uma coisa dessas, mas acho que me apaixonei por um rapaz da faculdade... Um com quem nunca falei. Aliás, cheguei a vê-lo só algumas vezes, duas ou três. Ou quatro. Mesmo assim, sei que fomos feitos um para o outro...

E continuou. Não sei o quão nítida está a tênue linha entre o discernimento e o impulso, entre a realidade e a fantasia dentro da cabeça dele. Talvez esse ímpeto afetuoso de sempre estar em busca de um amor platônico e inconcreto seja fruto de alguma frustração. É como se não levasse suas próprias sensações a sério. O sentimento é infantilizado a ponto de tornar-se uma triste piada, daquelas que rimos pra não chorar.

― Talvez ele saiba que eu o ame. Talvez não. Talvez ele me ame também. Talvez não. São meras hipóteses...

Não existe pessoa perfeita, nem que se encaixe exatamente no padrão de cada um. Os possíveis candidatos a futuros amantes são tão humanamente imperfeitos quanto todas as demais pessoas. O problema está na ilusão. O nervosismo entra numa explosiva ebulição, o sangue passa a circular com mais vigor pelo corpo carregando doses e mais doses de adrenalina consigo. Conforme o tempo passa, as impressões se desmancham, o medo do desconhecido desvanece-se e a verdade passa a ser evidente. Ai vêm as decepções, a amargura, a repulsa.

― Eu prefiro que seja assim, à distância, sem nos conhecermos ou nos tocarmos. Sei que se conhecê-lo, logo vou procurar os defeitos e desencantar. Gosto dessa sensação de estar vivendo um constante e interminável conto de fadas...

E punha-se a filosofar ainda mais. Sinto que começo a acreditar em suas palavras...



Óbvio... não-óbvio
31.8.09/// 8:43 AM

... O máximo que tinham feito até aquela data fora apenas trocar palavras superficiais. Mas naquela noite, não se sabe, se foi o fato de dividirem o estimulante, o 'confidente', ou as palavras regadas a álcool uma no ouvido da outra; mas ali nascia a amizade entre B. e K., o que para muitos era uma ironia, e para outros uma supresa (desagradável). A verdade é que nem elas mesmas sabiam se aquilo era eterno ou passageiro; mas com o tempo perceberam que mesmo suas personalidades sendo diferentes, algo não-descrito as faziam iguais. Com o tempo B. mostrou-se infeliz com suas amizades; então depois de ligações, encontros, e de fazerem retrospectivas de suas respectivas vidas, perceberam que não só tinham muito em comum, como também, uma despertava na outra, seu pior e melhor lado, na mesma intensidade.Foi com B. que K. aprendeu que "o tempo não cura nada... o tempo apenas tira o incurável do centro das atenções".

E talvez foi com K. que B. percebeu que não adiantaria preservar certas amizades, que antes uma certeza, do que muitos questionamentos. E a partir deste momento, que a realidade se fez mais presente, e a capa foi tirada, para que ambas pudessem observar uma na outra, os seus verdadeiros 'eus'. A diferença foi quem as moldou, e as coincidências permaneceram nas entrelinhas, não tão escondidas, pois bastava que trocassem olhares, para se verem e sentirem-se iguais. O tempo as presenteou, não só uma com a outra, como com as futilidades de uma convivência: piadas internas, trocadilhos, códigos, maldades, e antes de tudo cumplicidade; não se tornaram pegajosas, mas sim uma mistura, onde se reconheciam, e isso bastava para que nada mais incomodasse-as. Foi numa outra noite, entre risadas, e conversas soltas resultantes dos drinks do Ritz, que uma disse a outra, aquilo que sempre a BFF diz à sua BFF:

—Homens vão e voltam, já a nossa amizade é como Chanel... é eterna!

Mesmo aquele comentário sendo fútil, elas então perceberam, que não só homens iam e voltavam, como todo o resto que forma a vida, mas que acima de tudo, a amizade é sim como Chanel: clássica, única e atemporal!